fev 1, 2016
Tamy

Depois da tempestade

Se você não mora em Porto Alegre, provavelmente ficou sabendo pela TV ou internet que o apocalipse passou por aqui e nos ajudou a colocar em prática tudo aquilo que vemos em filmes e seriados sobre o fim do mundo (inclusive brigar por água no supermercado).

Os entendidos do assunto ainda não sabem dizer exatamente o que foi que nos atingiu, mas posso garantir – com a certeza de quem estava na rua no meio do temporal – que a coisa foi muito feia. Em minha passagem pela Avenida Ipiranga vi postes pegado fogo, fios e galhos caindo enquanto o carro balançava.

A tempestade deixou para trás um cenário assustador: a pracinha perto da minha casa – uma das regiões mais atingidas da cidade – deixou de existir. Todas as árvores caíram.
Só quando saí no sábado pude perceber como tive sorte de chegar em casa.

Falando em nela, com tanta chuva, parte da minha casa alagou, fiquei sem luz e sem água por 48 horas. E é sobre isso que vou falar hoje.

Porto Alegre, uma das capitais mais arborizadas do Brasil, está na rota das tempestades que vem do Uruguai e da Argentina. Como a fiação por aqui ainda depende de postes, quando o tempo fica feio já sabemos que o fornecimento de energia pode ser suspenso por algumas horas. Eu tenho um kit de emergência em casa: vela de 7 dias, acendedor para o fogão e no-break para salvar meus projetos a tempo. Nada que alcance a necessidade de 48 horas, mas dificilmente chegamos a tanto.

O que aconteceu nesse final de semana expôs algo que já é assunto há algum tempo, mas fazemos de conta que não acontece conosco: o vício em tecnologia. Nas redes, pessoas reclamavam que estavam sem internet (ignorando a situação da cidade, onde quase todos estavam sem luz), nos supermercados, que funcionavam com gerador, cada tomada era disputada entre zumbis com smartphones nas mãos.

Quando foi que deixamos nosso bom senso de lado priorizando a necessidade de estar conectado o tempo todo? Os hospitais estavam sem água, mas alguns só se preocupavam em conferir os looks das famosas no baile da Vogue.

A tecnologia é neutra: podemos usar para tornar a vida mais simples e prática ou para criar uma dependência a ponto de acharmos que reestabelecer a internet deveria ter prioridade em uma cidade arrasada pelo temporal.

Ficar desconectada por 48 horas foi positivo: saí na rua, conversei com meus vizinhos, tomei chimarrão na varanda apreciando o silêncio, terminei de ler um livro, limpei a cozinha e a parte que tinha sido inundada, podei algumas plantas, cozinhei (senão a comida estragaria no freezer). Fiz coisas que prometia e adiava há meses em apenas dois dias, ainda sobrou tempo para pensar na vida.

De onde tirei tanto tempo? Provavelmente do Instagram que não acompanhei, do Facebook onde não entrei e das redes que não conferi. Não quero dizer que eu ou você devamos nos desconectar para sempre, mas talvez não seja necessária tanta atualização assim.

Depois da tempestade, estou mais viva.

14 Comments

  • As prioridades estão loucas mesmo né? Lembro quando houve aquele surto por causa de uma possível interrupção no whatsapp. Quanto exagero, quanta falta de bom senso….Tem uma ilha que frequento habitualmente há anos, a Ilha do Cardoso no litoral sul de SP. Sem internet e com luz apenas por 6h diárias. É cada dia mais difícil encontrar um amigo disposto a passar uns dias comigo nesse pequeno paraíso na Terra.

    • Se um dia eu for ao litoral de SP, pode contar comigo como companhia 🙂
      Fiquei em uma praia na Tailândia que só tinha energia elétrica de noite (mesmo assim, só tinha uma tomada no quarto), foi libertador.

  • Tamy, aqui em Recife o caos foi do mesmo nível. Ainda temos regiões completamente sem fornecimento de energia (3 dias após o temporal), hospitais públicos (que já não oferecem lá grandes condições) sem luz e sem condições para armazenagem de amostras. Um caos!! Isso em meio aos festejos de Carnaval, que aqui no estado é uma época de grande fluxo de turistas. Eu estava na rua quando começou, tudo ficando alagado, as árvores debruçando sobre os fios de alta tensão, trânsito parado….O terror! Voltei feito louca para casa correndo pela rua, pois moro pertinho da praia e já estava com medo da situação por aqui. Não aconteceu nada demais, ainda bem. Minha região não ficou sem fornecimento de água ou energia elétrica. Mas fico pensando muito nas prioridades das pessoas e do governo, certo que carnaval é divertido, época boa para lucro na cidade, mas em meio a uma destruição como essa será que realmente era necessário manter duas grandes festas na cidade na noite dessa loucura? Será que realmente vale a pena todo ano investir horrores para “enfeitar” a cidade para os de fora e esquecer as necessidades reais dos que aqui vivem? Amo carnaval Tamy, cresci em Olinda, mas ficaria muito feliz em abrir mão dessa festa para ver o dinheiro que pagamos ser investido em reestruturação da cidade, isso sem citar a fundo melhorias em escolas e hospitais, que sempre são os mais prejudicados.

    • Só fiquei sabendo hoje que Recife também passou por maus momentos nos últimos dias. Espero que tudo se organize rapidamente.
      Sobre o Carnaval, muitas cidades estão nesse dilema né? Em alguns lugares ele foi cancelado para priorizar saúde/educação, em outros segue. O que podemos fazer é reclamar e anotar nome/prioridades de nossos políticos pois logo mais tem eleições né?!

      Beijos e que as coisas melhorem rápido por aí!

  • Que coisa insana essa tempestade que passou por PoA. Fiquei com o coração na mão de não saber como estava minha família (agora sei que estão todos bem). Mas Tamy, é um alívio ler um texto lúcido como o teu no meio dessas internês da vida. Obrigada 🙂

  • Ah Tamy, as vezes parece que é necessário esse despertar, as nossas prioridades infelizmente têm sido em cima das redes sociais e é quando acontece esse tipo de coisa é que a gente percebe.
    As vezes faço uma de ficar alguns dias/semanas sem acessar facebook e instagram, porque quando uso ainda que não tenha nada atualizado, o f5 fica rolando toda hora e o dia passa e o que precisava ser feito, não foi!
    Tenho essa teoria há um tempo e agora faço mais vezes por conta da faculdade, trabalhos precisam ser entregues e estudar pra prova, não dá pra fazer tudo ao mesmo tempo.
    E sinceramente? é tão bom deixar de um lado um pouco disso, seja de acompanhar looks, atualizar a rede social, postar algo, bater papo com alguém e bater papo consigo mesma, fazer anotações de mudança, escrever sobre algo legal que aconteceu e ninguém precisar ler, lê algum livro bom parado na estante há meses, enfim.
    Torço pra que um dia as prioridades humanas sejam outras e que essa batalha por uma entrada USB até no trem seja deixada de lado. Fazíamos tantas coisas antes desse baque, que hoje todos parecem morrer se ficarem minutos desconectados.
    Quanto à PO, espero que tudo se acalme e volte ao normal por aí, logo, logo. Eu vi alguns noticiários aqui no rj, mas não imaginava que era tanto assim.

    Se cuida, beijos! <3

  • Que Deus abençoe a todos e que esse seja dos males o menor.
    Um beijo carinhoso a todos.

  • Oi Tammy, vc mora no menino deus também?
    Eu fiquei pensando também sobre essas coisas, principalmente nossa dependência da tecnologia e o quanto isso é bom e perigoso ao mesmo tempo….
    Adorei o post!!

    • Olá! Eu moro na Medianeira, que é ao lado (mas pouca gente conhece :P)
      Que bom que você gostou 🙂 tenho imensa dificuldade em expor minhas divagações. Sinto-me mais “exposta” falando sobre meus pensamentos que postando fotos de biquíni 😛

      Acredito que o equilíbrio é salutar. Tecnologia é uma coisa boa desde que não nos tornemos dependentes. E o que se via nos supermercados no final de semana era assustador o.O Fiquei me sentindo em um filme pós-apocalíptico com gente brigando por gelo, água e tomadas.

  • Nossa, não sabia dessa tempestade!!!!

    Adorei o post, realmente a gente está tão viciado em internet, que não percebemos só quando ela fica fora que vemos isso!

    beijos

  • Tamy, tbm sou de Poa e concordo com tua colocação sobre nosso vício digital. Tanta coisa ainda sem funcionar na cidade e o mais importante é ter internet, ter netflix… Não né. Mas queria mesmo falar que essa tua exposição é a melhor parte do blog – é um dos poucos que ainda visito pra ler mais que ora ver, e que nunca me decepciona com o conteúdo (de ver ou de ler!).
    Aliás. Vi que a foto que te mandei no insta na verdade n chegou a ser enviada. Continua sem abrir teu blog no meu iphone, seja com 3g ou com wi fi. No tablet e note tudo normal, é no celular o problema… Experimentei apagar cookies e tudo o mais e não adiantou. Aí resolvi encarar isso filosoficamente e aguardar até chegar em casa pra ler tranquilamente, não na correria entre uma espera de elevador e outra!
    Bjo!

  • Tamy, concordo ctg em tudo, mas dou uma folga pras pessoas carregando os celulares: eu mesma atravessei a cidade para levar uma bateria extra pros meus pais que moram perto de ti e estavam sem luz para que a gente pudesse se comunicar em meio ao caos. Não me preocupei com internet ou mesmo tv, meu pânico foi ter ficado primeiro sem luz pro ar condicionado e não dormir de calor e, depois, sem água. Descobri que é muito, muito pior ficar sem água do que sem luz… E atravessei a cidade de novo para tomar banho na casa dos meus pais 😉

    Tomara que teu alagamento não deixe danos – e que nossas árvores se recuperem bem disso tudo…

  • NossaTamy, não sabia dessa forte chuva! Fico sentida por quem perdeu sua casa, pelos hospitais e pelas possíveis tragédias, muito triste. No mês de dezembro fiquei em casa por 15 dias sem energia, foi difícil pela alimentação, não consegui fazer muitas coisas. Mas, depois de 3 dias me libertei, tinha mais tempo, saia mais, conversava mais e ainda saí grata por estar com vida. Espero que tudo fique bem para todos!

  • Tu sempre maravilhosa em seus textos e posts! Adoro! E compartilho tuas idéias!

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