maio 15, 2017
Tamy

Como você pode ajudar a prevenir um suicídio

Recentemente assisti a série 13 reasons why , curiosa com os comentários nas redes sociais. Eu tinha algumas teorias a respeito que acabaram se confirmando: é uma série rasa, cheia de estereótipos, que glamouriza o suicídio sem esclarecer a respeito, mas se você quiser saber mais sobre o porque detestei esse seriado, pule para o final do post (contém spoilers) que hoje o tema é outro.

O assunto é desagradável, mas se você teve paciência para assistir 13 intermináveis horas de 13 reasons, eu lhe convido a passar alguns instantes por aqui lendo sobre suicídios da vida real.

Suicídio é considerado um caso de saúde pública no Brasil e no mundo pela OMS (Organização Mundial da Saúde), os dados mais recentes (2012) apontam o quão alarmante e urgente é tratar do assunto com seriedade:

• São 2.200 casos consumados por dia, um a cada 40 segundos;
• 1,4% de todas as mortes do mundo ocorrem por suicídio;
• Entre os 15 e 29 anos de idade, é a segunda causa principal de mortalidade, perdendo apenas para os acidentes de trânsito;
• O Brasil está abaixo da média mundial (113º lugar) com 5,8 mortes por 100 mil habitantes quando a taxa média é 11,4. Isso provavelmente ocorre porque boa parte dos diagnósticos e atestados de óbito apontem outras causas. Estatísticas das autoridades brasileiras apontam cerca de 32 mortes ao dia, levando nosso país a um assustador 8º lugar;
• Para cada pessoa que consegue se suicidar, outras 20 já pensaram, planejaram ou tentaram sem sucesso uma ou mais vezes.

E é justamente aí que esse post faz sentido. Talvez alguma dessas 20 pessoas esteja aí, pertinho de você e – ao invés de ficar apontando culpados como em 13 reasons, você pode ajudar e fazer a diferença:

Identificando e prevenindo o suicídio

De cada 10 pessoas que cometem suicídio, 8 deixam pistas de suas intenções. Avisos que nem sempre são percebidos com clareza por aqueles que estão próximos. Observar e identificar comportamentos pode ser o primeiro passo para ajudar:

• Alterações extremas de humor (apatia, irritação, acessos de raiva), sentimento de isolamento e solidão mesmo com pessoas por perto;
• Sentimento de culpa, vergonha, inutilidade, ódio de si ou acreditar que os outros são indiferentes;
• Isolamento social, declínio da produtividade , descuido com a aparência e com a higiene;
• Abuso de álcool e drogas;
• Comentários do tipo “a vida não tem sentido“, “o mundo ficaria melhor sem mim“, “não há uma saída”, “deixarei de ser um peso” e outros semelhantes;
• Despedidas: a pessoa se desfaz de objetos de valor afetivo, visita amigos e pode aparentar melhora.

Fatores de risco:

Transtornos mentais: 90% dos casos estão associados a patologias diagnosticáveis e tratáveis. Os mais comuns são transtornos de humor (depressão), dependência de álcool/drogas, esquizofrenia e transtornos de personalidade;
• Stress social: bullying, slut shamming, etc
 Grandes perdas: entes querido, trabalho, patrimônio, etc.
Abuso físico ou emocional;
• Doença e dor;
• Acesso facilitado aos meios necessários para se suicidar (armas, medicamentos, etc);
• Problemas familiares.

Mitos que precisamos esquecer:

Quem ameaça se matar não irá se suicidar de fato – como falamos acima, 8 a cada 10 casos avisam sobre as intenções de alguma maneira;
Quem tenta e não consegue não irá se matar realmente – quem já tentou se suicidar alguma vez pertence ao grupo de maior risco e deve ter suas ameaças devem ser levadas a sério;
Se alguém quer se matar não há o que ser feito – apoio emocional e ajuda apropriada podem reduzir o risco de suicídio. Dar a oportunidade para alguém desabafar e compartilhar seus sentimentos pode fazer a diferença.

Como eu posso ajudar?

Se você chegou até aqui e leu os itens anteriores deve ter percebido que tudo gira em torno de dedicar um pouco do seu tempo e da sua atenção a uma pessoa próxima. Tempo: aquela palavrinha mágica que poucos possuem e pode ser a diferença entre a vida e a morte de alguém.

Procure observar com interesse e empatia aqueles que lhe cercam e esteja disponível para escutar sem julgamentos, mostre que você se importa. Não se preocupe em resolver os problemas da pessoa, normalmente o que elas querem e precisam é desabafar e saber que alguém se interessa pelos seus sentimentos.

Caso você identifique comportamentos que indiquem pensamentos suicidas, auxilie a pessoa a pedir ajuda profissional e pelo CVV.

O CVV (Centro de Valorização da Vida) realiza apoio emocional gratuito 24 horas por dia. Eles atendem pelo telefone 141, também pelo chat, skype e email.

No Rio Grande do Sul 0 telefone do CVV é 188.

    

13 razões pelas quais eu detestei 13 reasons why (com spoilers):

1) Glamourização do suicídio: com o suicídio de Hannah, todos aqueles que não davam atenção ou não queriam falar com ela são obrigados a escutar 13 fitas sobre seus sentimentos. Podem ser responsabilizados pela sua morte e isso pode trazer consequências a cada um. Ela conseguiu se vingar e “venceu” aqueles que a humilharam e a fizeram sofrer.

2) Efeito Werther – suicídio é contagioso. Quando um suicídio é amplamente divulgado e romantizado, existe uma propensão a que novos suicídios sejam estimulados. O nome “Efeito Werther” vem de um personagem suicida de Goethe na obra Os sofrimentos do jovem Werther (leia sobre isso aqui) que gerou uma onda de suicídios na Europa na época de seu lançamento. Até hoje a imprensa é cautelosa ao noticiar suicídios de figuras famosas pois o efeito costuma se repetir (link no final do post). Isso acontece no seriado, onde outros personagens planejam suicídio. Na vida real ainda não temos dados atualizados, mas muitos especialistas demonstraram preocupação a respeito.

3) Personagens estereotipados – achei essa parte mais irritante que os episódios intermináveis, estamos em 2017 e a escola parece a de As Patricinhas de Beverly Hills ou Meninas Malvadas.  Se uma série se propõe a falar sobre bullying e insegurança, apontar isso como causa de infelicidade, poderia no mínimo diversificar o elenco. Todos os atores tem pele e cabelos lindos, enxergam muito bem e tem ótimos dentes. Aquela adolescência marcada por óculos, aparelho ortodôntico e acne não acontece aqui. Também não temos gordos e pessoas com deficiência. Temos as clássicas líderes de torcida fofoqueiras e invejosas, a oriental que só pensa em si e em suas notas, o gay de bom gosto e coração gelado, os atletas burros e bonitos, o cara rico com pais ausentes e uma grande piscina… uma interminável chuva de clichês.

4) Profundidade – já no primeiro episódio você pensa: “qual o problema dessa gente?” porque parecem sentir tudo pela metade, sem aprofundar. Tentei dar um desconto levando em conta que talvez essa dificuldade em sentir seria o motivo de tanta dor. Mas os adultos também são rasos e agem de um jeito bobo e irresponsável.

5) Manual de instruções – a cena de suicídio choca pela forma como é tratado, praticamente um tutorial. Só faltou Hannah explicando os passos. Não me venham dizem que é para dar realismo, porque se alguém quisesse que 13 reasons fosse realista, os itens 3 e 4 seriam diferentes. O objetivo era causar e causou.
Existem recomendações da OMS sobre como a mídia deve noticiar e falar sobre casos de suicídio, de maneira a prevenir novos casos e evitar o Efeito Werther, 13 reasons ignora boa parte delas.

6) Culpabilização – o enredo da série é apontar culpados: será Clay, os pais, a escola, os amigos? Não importa! Os sobreviventes de um suicídio (parentes e amigos do suicida) estão em um processo de imensa dor, responsabilizar alguém só torna esse processo mais doloroso.

7) Vingança – Hannah é bonita, inteligente, tem ótimos pais. Quando as coisas não saem como planejado ela grava 13 fitas distribuindo parcelas de culpa a cada um e se despede, demonstrando pouco interesse pelo amor dos pais ou de Clay.

8) Estupro – se algo pode ter sido o estopim da morte de Hannah, foi o abuso sexual, tanto o que presenciou quanto o que sofreu. Mas o tema parece solto, com uma abordagem forçada que levou muita gente a culpar a vítima (dentro e fora do seriado).

9) Adultos – os adultos da série são uma piada. O conselheiro e a professora, pessoas preparadas para identificar os sinais que apontam suicídio, são bobos e desqualificados. Espalham cartazes temáticos pela escola, mas quando os alunos surtam eles apenas ficam intrigados com a reação. Ninguém procura Clay ou Alex para tentar entender o que está acontecendo.

10) É tudo de mentirinha – outra piada são os cenários, principalmente os quartos dos adolescentes que parecem um showroom de móveis planejados. Hannah, Clay e Jessica aparentemente compram cartazes na mesma loja, já que todos tem bordas brancas iguaizinhas. Eles também colam os cartazes com uma disposição rigorosamente alinhada, como todo adolescente faria com os pôsteres de suas bandas favoritas. Tudo nessa série tem gosto de artificial, menos a morte brutal que “precisava ser realista“.

11) Saúde mental – em uma série sobre depressão e suicídio, o tema central deveria ser saúde mental e não de quem é a culpa. Os 13 citados nas fitas de Hannah apresentam sintomas alarmantes mas ninguém se preocupa com isso, nem mesmo os idealizadores do seriado.

12) Easter egg doentio – se você chegou até aqui achando exagero esse papo de romantização do suicídio, saiba que a trilha sonora inclui Hey hey, my my de Neil Yong no episódio 03. Um trecho dessa música foi citada por Kurt Cobain em sua carta de suicídio. Morte que, aliás, gerou um Efeito Werther e inspirou muitos suicídios na época.

13) Conscientização – falar sobre suicídio, bullying, abuso é importante, mas a série apenas atira os polêmicos assuntos no colo do telespectador, sem apontar uma solução, encerra omissa e triunfante rumo a uma segunda temporada. Perdeu uma excelente oportunidade de fazer a diferença na vida de muitos jovens que engrossam as estatísticas diariamente, enquanto deixa pontas soltas para uma segunda temporada com um possível ataque suicida. Desnecessário, improdutivo, irresponsável.


Para ler mais sobre o assunto:

Comportamento Suicida: conhecer para prevenir (dirigido para profissionais de imprensa).
Prevenção do Suicídio
• Prevenindo o suicídio – um imperativo global – OMS
 Viver é a Melhor Opção – André Trigueiro

9 Comments

  • Oi, Tamy. Achei excelente o texto que escreveu. Não assisti a série e por isso não tenho muito o que opinar sobre. Mas acho muito importante esses pontos que vc levantou sobre a glamourização do suicídio e o impacto disso na população.
    Sou psicóloga e me sinto extremamente incomodada da forma como a mídia trata alguns problemas de saúde mental, (estereotipando, banalizando, glamourizando…), algo que tem impacto negativo na população.
    Tenho um parente que trabalha como voluntário no CVV e comentou cmg como as ligações telefônicas aumentaram desde que a série se tornou famosa… Gostaria de acreditar que seja porque as pessoas tem buscado mais ajuda, mas creio que seja mais devido a tal glamourização do suicídio e o chamado Efeito Werther.
    O que me deixa preocupada é que muitos CVVs tem fechado por falta de recursos financeiros!!! Sugiro que as pessoas que valorizam esse trabalho, se informem sobre como podem ajudar, seja trabalhando como voluntário ou realizando doações, para que esse trabalho importantíssimo não acabe!

    • A questão do CVV é preocupante! Trabalho em um serviço semelhante ao CVV, mas presencial, alguns voluntários de lá também são do CVV. Infelizmente o serviço ainda não é gratuito em boa parte do país e a manutenção custa caro. Há 2 mil voluntários para o Brasil inteiro (o que é pouco). Um serviço valioso como o que eles fazem deveria ser amplamente divulgado e apoiado, é realmente uma pena estar assim. 🙁

  • Oi, Tamy! Assisti a série e fiquei esperando nos 13 episódios que alguém tocasse no assunto “transtornos afetivos”. Os personagens apenas comentavam “ela tinha problemas”… Eu tenho TAB e ver essa série me fez muito mal, mesmo não vendo a cena do suicidio em si. Acredito que pessoas dentro de grupos mais vulneráveis, como eu, não deveriam assistí-la. O que implica é que muitas pessoas não têm diagnósticos, principalmente os jovens que a viram. As pessoas precisam saber sobre suicidio, mas precisamos falar mesmo é sobre os transtornos que podem desencande-lo. Porque a febre da série praticamente já passou e um monte de gente que achou triste a vida da Hannah tá achando a crise de ansiedade da colega frescura.
    Parabéns pela forma como abordou o tema. Um abraço!

    • Assisti sem muita esperança, mas pensei que ao menos eles apontariam um raiozinho de luz para quem passa por isso (procure um médico, procure ajuda na escola, procure uma organização como o cvv), mas os caminhos que apontam são: suicídio, bebida e atirar nos outros. Muito triste.
      Não é à toa que conselhos e profissionais estão se manifestando a respeito da forma irresponsável como abordaram o tema.

      Mesmo na época do alvoroço em torno da série muitas pessoas julgaram Hannah, dizendo que as motivações dela eram frescura. Uma abordagem mais humana teria evitado essas interpretações erradas e poderia ajudar muita gente. Uma pena.

      Beijos

  • Olá, Tamy!
    Primeiro quero dizer que adoro o blog, acompanho há alguns anos, e te acho uma pessoa imensamente legal. Rs.
    Quanto ao tema: hoje consigo falar abertamente e sem dor, depois de muito remédio e terapia, sobre minha tentativa de suicídio e depressão gravíssima. Há pouco mais de um ano fiz isso, e tenho que dizer. Não é bonito, não tem glamour, dói, e o pior de tudo é ouvir tudo isso: se quisesse mesmo teria conseguido, era frescura só pra chamar atenção. As pessoas próximas tentam ajudar, e sofrem com tudo isso.
    Eu estou curiosa para ver a série, por todas as críticas já lidas na internet, e agora mais a sua.
    Esse é um tema muito complicado e tem que ser debatido, mas com um foco de ajuda, não de crítica nem de glamourização.
    parabéns pelo blog, e pela excelente abordagem do tema!

    • Alana, obrigada por dividir seu relato conosco e fico feliz que você esteja bem e se sinta fortalecida para falar sobre o assunto.
      Não sei se assistir 13rw é uma boa opção, pode ser doloroso e trazer lembranças que podem não te fazer bem. Antes de assistir, converse com seu terapeuta a respeito, ok?! 🙂

      Obrigada por comentar e aqui serás sempre bem-vinda!

      Bjs

  • Tamy, vc organizou em post basicamente tudo que eu odiei nessa série. Sou médica, embora não trabalhe diretamente com pacientes, e fiquei sabendo que 13 reasons existia via amigas psiquiatras apavoradas com a irresponsabilidade envolvida. Fui ver… é horrível, superficial, infantil, glamouriza – muito!! – o suicício, e pior que ao falar superficialmente de bullying, abuso… ela propõe uma identificação do espectador com a Hannah (quem foi adolescente e nunca vivenciou alguma das situações exibidas no seriado, em uma ponta ou noutra?) que num viés torto diz que ou tua solução é, também, o suicídio, ou que tu tem culpa no suicídio dos outros. Da maneira ali exposta não existe cinza, ninguém é inocente se não for vítima…
    Achei uma irresponsabilidade tremenda todo o seriado e não aguento mais gente falando que é necessário aquele tudo de cena gráfica.
    (Aparte: a única personagem que me arrancou alguma empatia foi a amiga, Jess, que consegue trabalhar seu trauma e seu luto sem machucar mais ninguém…)

    • Muita gente está se identificando com os personagens (quem nunca se sentiu como Hannah em algumas situações) e isso é perigoso já que poucas pessoas têm acesso a profissionais que possam orientar e medicar em casos onde há necessidade.
      Achei importante alertar embora nem todos concordem com meu ponto de vista.

      Bjs

  • Tamy, adorei o seu post! Temos opiniões parecidas, além do fato que me senti muito mal vendo a série e me despertou sentimentos ruins. O efeito Werther é real e preocupante, é uma pena que os produtores tenham sido tão irresponsáveis e tenham feito um desserviço tão grande com o tema.. Vi que terá uma segunda temporada, já fico apavorada de pensar no que vai ser abordado 🙁
    Enfim, adoro seu blog, continue sempre! Beijos

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